sábado, 7 de novembro de 2009

O dia em que a Terra parou

Semana passada, assisti a "O dia em que a Terra parou", versão 2008. Bom filme, bacana, bem produzido. Mas acho que teria gostado mais dele se não tivesse visto a versão original, que é um filme do tipo que gosto, clássico, pungente, impactante. A versão atual superou a original em cenas fortes e reviravoltas no enredo. Mas ficou devendo em alguns quesitos que considero fundamentais, como concisão e força da narrativa, impacto das atuações e - isso é fundamental - charme. No filme de 1951, há uma justeza incrível nas escolhas de cores e formas, que precisam compensar por meio da sugestão a falta de recursos para produzir efeitos visuais.
A diferença mais marcante entre os filmes, entretanto, diz respeito à época em que foram produzidos. O filme original surge num contexto de guerra fria, traz uma mensagem pacifista e capricha no discurso final do alienígena Klatu como um apelo ao bom senso e a uma visão conciliadora de mundo; esse pano de fundo associa-se com perfeição à atmosfera sombria da película. A nova versão, carente dessa tensão fundamental para potencializar a simbologia do enredo, substituiu as preocupações pacifistas pelas ambientais. O foco saiu da belicosidade inerente ao ser humano, que pode levá-lo à autodestruição violenta, para a incapacidade de lidar com a natureza e seus recursos, que pode levá-lo à autodestruição apocalíptica. É preciso conceder que a personagem de Kathy Bates recupera, em certa medida, as preocupações da primeira versão, mas a condução do filme vai apontando, aos poucos, uma outra direção, que se revela menos feliz, em termos de enredo. A segunda versão menos bem acabada que a primeira, e com menor definição do ponto onde pretende chegar. O acontecimento ficcional que dá título ao filme, na primeira versão, é uma represália e uma demonstração de poder dos alienígenas, e aparece em meados da trama. Na segunda versão, o apagão mundial ganha contornos de sugestão - poupança de energia, redução da intensidade de exploração dos recursos da natureza - e aparece como desfecho da trama, talvez mais instigante, porque abrupto e imagético, mas com certeza menos intenso e belo que o discurso final do filme de 1951. Na primeira versão, o robô Gort, uma das criaturas mais incríveis já criadas pelo cinema de ficção científica, exibe sua indestrutibilidade e sua obediência na luta contra as forças de segurança da cidade, e tem papel extremamente relevante para a história ao resgatar Klaatu e ressuscitá-lo na nave. Na segunda versão, o robô ainda é símbolo de imponência, mas sua relação com Klaatu e sua função na trama são inconsistentes. Acaba sendo inevitável, para quem viu o original, perguntar-se onde está a famosa frase "Klaatu barada nicto", senha em língua alienígena com que Helen alerta Gort do que tem de fazer em relação ao seu companheiro, em uma das sequências mais fortes, misteriosas e eficientes do enredo. A segunda versão não tem a fuga de Klaatu, não tem discurso final, não tem a frase enigmática, mas também não tem nada que substitua à altura esses elementos e personagens.
Na verdade, a segunda versão faz escolhas despropositadas e forçadas, como a personagem do garotinho Jacob, chatinho, folgado e intrometido, que se insere na história como uma criatura cujo vínculo com os acontecimentos que o rodeiam soa ilógico, inverossímil e artificial, ou, numa palavra, inconvincente. Em 2008, Helen ganhou o estatuto de cientista acadêmica, mas isso invalidou a inocência assustada e a confiança cega que caracterizavam a Helen de 1951, atributos que também não puderam ser recuperados adequadamente pela personagem de Jacob, que é demasiado antipática. Tudo isso somado à irrelevância de Gort na trama e à fleuma excessiva do Klaatu de Keanu Reaves acabou conduzindo a um resultado final ralo e desequilibrado em comparação à primeira versão. Mas isso não quer dizer que o filme não valha a pena. Significa apenas que não é uma obra-prima. Relevadas as comparações, poderemos fruir de uma película com ritmo, suspense, e bons efeitos visuais.