Acabo de voltar do cinema. Vi a Alice da Disney. Isso mesmo: muito mais da Disney do que do Tim Burton. A essência é da Disney, o acidente é do Tim Burton.
E são os aspectos acidentais da história os mais bacanas, talvez porque sejam justamente os mais próximos do texto literário: as personagens encantadoras, os diálogos e cenas non sense, a escolha de uma cenografia bem maluca, excelentes maquiagem e figurino, bons atores.
A essência é que ficou devendo: a Alice da Disney é uma heroína, a de Carrol é uma pensadora. A narrativa do filme é terrivelmente teleológica, maniqueísta, simplificadora; a narrativa do livro é anárquica, provocativa, calcada numa sequência de achados que funcionam como situações independentes. A personagem adolescente da Disney transforma a história em exemplar da superação da crise de identidade, mais ou menos como em Labirinto, a magia do tempo; a personagem infantil de Carrol carrega uma sagacidade de raciocínio e uma percepção aguda do que observa que remetem a reflexões filosóficas e questionamentos mais amplos. A Alice da Disney é alguém que aprende; a Alice de Carrol é alguém que descobre.
A despeito dessa opção por um formato mais convencional para a trama, o filme é interessante, bem feito e agradável, e consegue conduzir o espectador, em determinados momentos, a situações de incômodo e estranhamento, podendo suscitar reflexões sobre temas como imaginação, identidade, loucura.
