sábado, 22 de maio de 2010

Alice



Acabo de voltar do cinema. Vi a Alice da Disney. Isso mesmo: muito mais da Disney do que do Tim Burton. A essência é da Disney, o acidente é do Tim Burton.
E são os aspectos acidentais da história os mais bacanas, talvez porque sejam justamente os mais próximos do texto literário: as personagens encantadoras, os diálogos e cenas non sense, a escolha de uma cenografia bem maluca, excelentes maquiagem e figurino, bons atores.
A essência é que ficou devendo: a Alice da Disney é uma heroína, a de Carrol é uma pensadora. A narrativa do filme é terrivelmente teleológica, maniqueísta, simplificadora; a narrativa do livro é anárquica, provocativa, calcada numa sequência de achados que funcionam como situações independentes. A personagem adolescente da Disney transforma a história em exemplar da superação da crise de identidade, mais ou menos como em Labirinto, a magia do tempo; a personagem infantil de Carrol carrega uma sagacidade de raciocínio e uma percepção aguda do que observa que remetem a reflexões filosóficas e questionamentos mais amplos. A Alice da Disney é alguém que aprende; a Alice de Carrol é alguém que descobre.
A despeito dessa opção por um formato mais convencional para a trama, o filme é interessante, bem feito e agradável, e consegue conduzir o espectador, em determinados momentos, a situações de incômodo e estranhamento, podendo suscitar reflexões sobre temas como imaginação, identidade, loucura.

sábado, 1 de maio de 2010

Chico Xavier

As pessoas não precisam se assustar em relação a qualquer carga de doutrinação que pudesse haver num filme que tematiza uma das maiores personalidades do espiritismo em todos os tempos. "Chico Xavier" é uma obra sem grandes pretensões nesse sentido. E, como entretenimento, envolve, agrada e comove. Não há grandes discussões filosóficas, nem exames acurados sobre a veracidade ou falsidade dos fenômenos a que a película alude. A abordagem é biográfica, centra-se no homem Francisco de Paula, em sua trajetória de figura pública e no sofrimento resignado que caracterizou sua convivência com a mediunidade que possuía. As atuações são indicutivelmente competentes (com destaque para Ângelo Antônio), o roteiro dosa com equilíbrio emoção, humor, tensão e dados históricos, e a direção consegue segurar o ritmo da trama, sem cenas espetaculares, sequências antológicas ou pirotecnias.
Lamento apenas que a obra social do médium (que é, em última análise, seu maior legado) tenha aparecido tão pouco. Mais que o dom de ouvir espíritos, a caridade foi o que diferenciou esse grande brasileiro da média de seus coetâneos; infelizmente, essa virtude chama menos a atenção do que deveria.