segunda-feira, 3 de maio de 2021

Professor Polvo, de Pippa Ehrlich e James Reed

 




Comovente documentário sul-africano vencedor do Oscar de 2021. Inúmeras qualidades.

Música completamente harmonizada com a intensidade das cenas.

Nenhuma intervenção humana relevante no ciclo natural dos animais envolvidos.

Muitas cenas deslumbrantes da praia, do mar, das ondas batendo em rochas.

Os protagonistas são os animais.

Edição de imagens produz narrativa convincente, com boas escolhas.

Está disponível na NETFLIX.

Além disso tudo, o doc sustenta reflexões sobre a vida humana e animal.

Para a maioria das pessoas, o amor a um animal é uma realidade cotidiana.

No entanto, normalmente esse amor dialoga com as conveniências da vida do ser humano envolvido.

Gatos e cães são bem-vindos. Ácaros, baratas e pernilongos, não.

E mesmo os animais bem-vindos devem ser "domesticados", ou seja, adaptados ao domus, a casa. Consequentemente, devem seguir as regras do dominus, o senhor.

Este documentário mostra uma outra forma de amar os animais, que é entrar cuidadosamente, com respeito e carinho, em seus territórios, em suas casas, e aceitar as regras do jogo da natureza. 

Não é forçar o bichinho a sair bem na foto. Não é fazer ele ter reações que o estressam ou reduzem sua condição de sobrevivência.

É bater na porta da natureza dele e reconhecer o tamanho da inteligência e grandeza que tem ali. 

E pensar nessa grandeza como algo que independe de nós, embora nos permita projeções acerca de nós mesmos.

Seria uma forma superior e menos egoísta do amor?


domingo, 26 de julho de 2020

Parasita, de Bong Joon Ho



Que eu saiba, só um filme, Marty, com Ernest Borgnine, tinha vencido o Oscar de Melhor Filme e a Palma de Ouro em Cannes. Nenhum até então tinha vencido o Oscar de Melhor Filme e o de Melhor Filme Estrangeiro (que mudou para outro nome, esqueci qual). Nenhum tinha ganhado as três coisas. 
Ver Parasita depois dessa celebração toda da qualidade do filme poderia ter sido uma experiência frustrante. Eu esperava, por essas conquistas únicas, encontrar uma obra-prima. Ainda mais porque os filmes do Oscar deste ano eram muito bons, todos eles.
Vi numa longa madrugada. Parei várias vezes (coisa que não poderia fazer no cinema). Refleti, senti a força do que vinha tela, rodei de novo, parei de novo. Levei mais de três horas para ver. Realmente, é uma obra-prima impactante. Há elementos de suspense suficientes para carregar a trama, mas o aspecto da representatividade social dos tipos humanos tem potencial desestruturador para quem acompanha absorto. As feridas abertas das divisões de classe e da invisibilidade da pobreza são recuperadas de modo poético e instigante. A miséria sempre prestes a explodir não explode (como ressalta um dos diálogos mais tensos do filme), ela se infiltra e se beneficia da astúcia que a necessidade construiu, dissolvendo contratos morais e buscando aquilo que se constrói a partir de sua exploração, sem jamais se sentir devidamente pertencente ao mundo que almeja.
Este filme coreano causou em mim impacto semelhante a Beleza Americana. Ambas as narrativas conseguem coligir elementos relevantes para a compreensão de que os valores e padrões almejados pela sociedade de consumo são erigidos na vacuidade e futilidade de um modo de vida inseguro e insatisfatório, pautado em sinais de poder muito caros e muito sem sentido. Em Beleza Americana, a questão é como romper com esse modo de vida. Em Parasita, seria como viver à margem, mas perto e até dentro dele, desejando-o sem jamais alcançar.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O campeão (1979)




Concebo duas subcategorias de filmes, organizadas pelos seus núcleos temáticos, que aprecio a despeito de reconhecer a mediocridade de boa parte de seus exemplos. São os filmes de dinossauros e os filmes sobre boxe.
Quanto aos primeiros, não lembro de ter sido produzida nenhuma obra-prima com esse tema, embora o primeiro King Kong deva ser reconhecido como clássico, por justiça. 
Quanto aos segundos, há filmes muito bons entre outros não tão bons: Rocky, O Touro indomável, Menina de Ouro. Os protagonistas desses filmes lutam por várias motivações e contra vários problemas particulares, e a condição de boxeador dialoga com outros fatores importantes para o enredo, como a marginalidade, a pobreza, a violência, o descontrole, o ímpeto, e a confiança.
Reconheço que esses três filmes citados, por diversas razões, são esteticamente mais bem acabados,  e creio que possam ser considerados clássicos do cinema. Mas nenhum dos filmes sobre boxe é tão tocante quanto O campeão, que vi na versão de 1979: no que tange ao espírito da "nobre arte", talvez não haja uma percepção tão justa de sua dimensão emocional e existencial. 
O boxe é uma luta, um jogo, uma dança, e, principalmente, uma forma de direcionar energias do corpo e da mente para dizer algo sobre si e sobre o mundo. Não é à toa que boa parte dos boxeadores tem dificuldade de parar, mesmo quando seus corpos já não respondem às ordens do cérebro com a agilidade necessária. O espírito do boxeador é tentar saber se poderia ficar em pé um pouco mais, fazer um outro round, fazer uma próxima luta. O boxeador empenha seus limites físicos para entender seus limites existenciais. Mas do que vencer ou perder, essa busca metaforiza o enfrentamento da vida sem recuo, sem autopiedade e sem medo do que possa acontecer depois. 
O campeão é um filme de amor, principalmente; mais do que o amor paterno, o amor pela vida e pela possibilidade de dar o seu melhor, sempre. Assim eu o senti em minhas lágrimas.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Tubarão




Versarei aqui sobre a produção clássica de Steven Spielberg da década de 1970. É um dos melhores usos de câmera que conheço. Desde a primeira cena, os ataques são construídos por alternâncias entre o ponto de vista da pessoa atacada ou seu acompanhante - incapaz de perceber, no mar, o avanço do predador - e o ponto de vista do animal, ou o movimento que poderia representar seu ponto de vista. Quando a câmera se desloca debaixo da água em direção ao corpo dos banhistas, há sempre uma sensação de iminência de violência, mesmo quando se está diante de um alarme falso. Justamente por não poder distinguir o ataque real do alarme falso, o espectador fica em estado de constante tensão, pressionado pelos elementos de narrativa que o diretor-enunciador-informante fornece. Contribui para esse estado de tensão a vulnerabilidade física de alguns atacados, como crianças e idosos. 
Os três protagonistas que se propõem a enfrentar de dentro do barco a fera dos mares são personalidades complexas, dúbias e imperfeitas, que se atritam em sua teimosia e em suas divergências. Com isso, a narrativa ganha uma tensão adicional, em que o sucesso da empreitada depende, também, do improvável entendimento dos participantes. Além desses aspectos, há uma crítica à crueldade da administração pública quando minimiza situações de grave perigo em função dos lucros possibilitados pelo turismo. 
Ainda que não conte com recursos de efeitos visuais de primeira, como mais tarde conseguiria, Spielberg conduz a narrativa de forma a tornar a aparição do tubarão, no enfrentamento aberto final, como ponto máximo da percepção de periculosidade. Antes de vê-lo em ação, o espectador já sabe de tudo o que ele pode fazer, e efetivamente já fez. Ainda que tivéssemos uma construção computadorizada altamente fiel do tubarão nos dias de hoje, isso provavelmente não mudaria a sensação de realidade transmitida pelo filme, que é baseada num contrato ficcional competente, cujo desenvolvimento atua como fator desestabilizador  do sentimento humano inato de autopreservação.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Salvando o capitalismo




Acabo de ver, pela NETFLIX, este documentário sensacional, produzido pela própria empresa. Sempre desperta curiosidade o fato de que empresas de entretenimento por vezes promovem discussões e ideias contrárias às daqueles grupos que as financiam, como no caso deste filme. Em foco, está Robert Reich, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, renomado economista liberal, muito distante de ser qualquer tipo de pensador à esquerda (é bom que se frise isso), que tem como tese central a de que as grandes corporações estão se utilizando do Estado, via influência política, para aumentarem a concentração de renda e poder em suas mãos. Talvez não seja o caso da NETFLIX em particular, mas essa discussão com certeza envolve questionamento de ações no mercado de mídia, como grandes fusões (vide Disney e Fox). Mesmo que eu não saiba bem o porquê, o importante é que a NETFLIX deu essa oportunidade para reflexão, e nós aproveitamos.
O documentário, que é narrado em ritmo gostoso, fluente e sem pedantismos, mostra o esforço de Reich em ouvir as pessoas e identificar pontos comuns de insatisfação dentro de espectros políticos considerados opostos, como os dos republicanos e dos democratas. Impressiona verificar que Reich sai bem-sucedido dessa aparentemente inconcebível empreitada, porque detecta a raiz da insatisfação popular nos Estados Unidos como uma percepção geral de empobrecimento da população e degradação das condições de vida.
Um dos momentos altos da película ocorre quando Reich, democrata histórico, conversa com um dos mais conservadores deputados do Congresso, e ambos se veem impelidos a combater o que chamam de capitalismo de compadres, insensível a questões éticas da representatividade política. Nos dois pólos da política americana, dois homens ideologicamente em conflito são capazes de entender com lucidez que a confiança da população nas instituições decai na medida mesma em que essas instituições se tornam ineficientes em seu papel democrático. O sistema deve funcionar para todos, e isso não está acontecendo: ambos têm essa clareza.
Outro momento brilhante do filme ocorre na análise de Reich sobre a insatisfação popular. O economista entende que a população se sente desamparada e insegura em relação ao sistema, e que, por isso, tende a procurar alternativas populistas, ou seja, aqueles que aparentemente reconectam os interesses populares com o Estado. Entretanto, segundo Reich, há uma grande tendência de que essa demanda recaia sobre o autoritarismo, com a ascensão ao poder de um líder aparentemente forte e capaz de resolver problemas. Mas esse perfil autoritário tenderia, na verdade, à manutenção do crescimento da desigualdade dentro do sistema e à culpabilização de bodes expiatórios, sem afetar as estruturas e legislações que precisariam ser revistas. Isso acontece em termos de cultura política,  acrescento eu, lá e aqui também, no Brasil.
A lucidez de Robert Reich mostra que é preciso saber dialogar com quem estuda e se aprofunda, e saber ler nos extremismos os pedidos de diálogo e formação das pessoas que estão insatisfeitas, mas não conseguem identificar exatamente com o quê.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Rogue One




Rogue One fez bem seu papel de filme paralelo a uma sequência mitológica de uma das maiores franquias do cinema.
Primeiro, como produto acabado. Vi o filme em 3D. Seus recursos visuais são bastante apropriados para esse formato. Cenas intensas de guerra e destruição ficam mais vívidas.
Além disso, enquanto estrutura narrativa, o filme responde à altura o desafio de ser interessante e envolvente sem contar com as grandes estrelas da franquia (nem os atores, nem os personagens icônicos). A ausência de Luke, Leia, Solo, Chewbacca, e a participação apenas adjuvante de Vader, C3PO e R2D2 geram um vazio de expectativa, preenchido por uma trama bem concatenada, com novos personagens que, se não são icônicos, são eficientes para o objetivo cinematográfico desejado. Dois personagens, em particular, podem ser vistos como memoráveis: o robô K2SO, com seu humor peculiar, e Chirrut Imwe, o guardião cego que confia no poder da Força e atua como se pudesse ver. 
Pela primeira vez na saga, o centro da história não é duelo Sith x Jedi, nem conflitos interiores de Anakin/Vader, e sim uma disputa política de poder militar entre rebeldes e Império. Há remissão à Força e ao Lado Negro, mas essa tensão está longe de ser o núcleo do enredo. Os protagonistas não transcendem a trama: estão irremediavelmente atrelados a essa história específica e marginal, e é dentro dela que têm de se desenvolver. 
Na verdade, toda a ação dos rebeldes se dá em um contexto de derrota iminente e desesperança, rompidos por pequenos laivos de coragem e ousadia, que são o foco temático escolhido e a única coisa que pode mudar o desfecho evidente. Em consequência, cria-se um filme sombrio, mas com personagens mais humanos que os da saga, porque não possuem diferenciais mágicos, míticos ou inatos. A maior humanidade das personagens gera mais questionamentos, porque a divisão entre bem e mal, certo e errado, certeza e incerteza, fica menos marcada. Semioticamente falando, diria que os destinadores são menos fortes e implacáveis, e por isso heróis e vilões são mais frágeis e dúbios. 
Mas esse é o charme de Rogue One. E esse charme garante à produção sua relevância dentro da saga, da qual tornou-se representante legítimo, ainda que a seu modo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O invasor americano




Em sua mais recente produção, Michael Moore resolveu visitar países mundo afora para conhecer soluções implementadas em diversas áreas, como saúde, educação, justiça etc. Foram visitados Portugal, Itália, França, Tunísia, Alemanha, Suécia, Noruega, Finlândia, Eslovênia.
Muito bem humorado, mas também muito atento às questões que envolvem causas polêmicas e importantes para a vida dos cidadãos de vários países do mundo, o diretor conduz esse passeio fazendo comparações entre as soluções encontradas e aquelas que são aplicadas nos Estados Unidos. Seu compromisso é levar essas boas ideias para serem aplicadas em seu país.
Alguns depoimentos são muito chocantes e agressivos, mostrando como indivíduos em todo mundo questionam e rechaçam o American Way of Life. Particularmente interessantes são as soluções escolares na França, onde as crianças fazem suas refeições monitoradas por nutricionistas e sendo educadas para uma dieta saudável, e na Finlândia, onde os estudantes ficam tempo menor em sala de aula e não levam atividades para casa.
O conceito do filme de Moore, se retomado por interessados brasileiros, em nosso contexto, serviria para trazer importantes tópicos de discussão para nosso país. Seria muito bem-vinda a informação sobre soluções adotadas em outros países para evasão escolar, desemprego, combate ao tráfico. Via de regra, só recebemos soluções já prontas, pré-aprovadas, nas quais o diagnóstico e o remédio são apresentados como indiscutíveis e inquestionáveis. Precisamos ser menos submissos às ideologias e modinhas que os americanos vendem por aqui (nada contra nem a favor, apenas constatando que assimilamos coisas demais de um país só), e pensar mais em nossos vizinhos de fronteira e em outros países que encontraram formas de equilibrar suas demandas com seus próprios recursos de inteligência.