sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sangue negro




É muito bacana quando um filme consegue surpreender positivamente, trazendo mais do que a gente esperava numa primeira aproximação. "Sangue negro" proporcionou essa sensação, e seu mérito de fazê-lo é grande, pois impressionou mesmo a um espectador que já tinha sido informado sobre as razões de sua aclamação crítica. Com efeito, antes de vê-lo, já tinha lido sobre sua excelência, mas essa obra é daquelas que não adianta tentar descrever: é preciso aceitar e fruir suas provocações.
Num primeiro momento, não gostei da tradução do título, que me pareceu estranha. "There will be blood" não remetia, na minha cabeça, à palavra "negro", mas percebi que a sacada da expressão em português é unir sangue e petróleo no mesmo conceito, e ainda fazer referência a uma das problemáticas do filme, que é a da herança genética.
Daniel Day-Lewis ganha a gente de cara. Um dos maiores atores de todos os tempos, esse cara consegue fazer o espectador esquecer completamente de como atuava nos outros trabalhos que fez. Quem acompanha o desenvolvimento da interpretação ao longo do filme "entra" no caráter da personagem e assimila sua profundidade. É incrível, mas parecem ser atores diferentes os que protagonizam "Lincoln" e "Meu pé esquerdo" ( e não são!). Quem viu os três filmes teria enorme dificuldade de descrever as características do estilo do próprio ator incorporadas às atuações. Muito bom e muito raro.
No decorrer da narrativa, percebe-se que "Sangue negro" constrói uma crítica ácida e cruel ao tão propalado e estimulado espírito empreendedor capitalista, que aparece em duas facetas: a do pastor e a do explorador. Embora o religioso Eli Sunday apareça menos e não seja caracterizado exatamente como um homem de empreendimentos técnicos, ele possui o talento de alcançar o que financeiramente lhe convém pelo discurso e pelo gerenciamento de sua relação com os promotores das transformações financiadas pelo capital.
A crueldade dessa temática pode ser associada ao padrão cenográfico, com cenas longas e escassos diálogos, que torna o filme seco e duro, tal como o trabalho de escavação e as condições de vida da população do campo. Há muito sofrimento físico, calor, sangue. Há sequelas terríveis para os trabalhadores e os financiadores, no corpo e no espírito. 
Toda essa dor contribui para o questionamento dos aspectos desumanizadores da busca desenfreada pela riqueza no interior da terra árida. E isso é muito bacana: o filme não edulcora o espírito empreendedor e a ambição, hoje tão valorizadas como "motores do sucesso" e apresentadas pelos veículos de massa como méritos inquestionáveis de uma casta de escolhidos e diferenciados. Ao mesmo tempo, não nega que essas disposições de espírito movem o progresso, mas ressalta que esse progresso é permeado de barbárie e violência, e que não se mostra suficiente ou compensador nem mesmo para quem o alcança a duras penas.
Outro ponto muito positivo do filme é tocar na questão da integração social do deficiente auditivo. A relação do protagonista com o filho é complicadíssima, e passa pela incompreensão da sociedade em relação ao surdo e suas necessidades. Entre as questões mais pungentes trazidas pelo roteiro está a da incapacidade de conciliar o zelo pelos entes queridos e a necessidade de avançar os negócios: é mais fácil e "seguro" se livrar deles do que incorporá-los. No enredo bem concatenado, o abandono de H. W. e a relação com Henry atestam a solidão moral e psicológica do protagonista, grande ponto fraco de sua personalidade, com a qual é incapaz de lidar.
Além de todos esses primores, a trilha sonora de Jonny Greenwood, do Radiohead, é um show à parte, respondendo com muita precisão aos chamados brutais da imagem em movimento.
Eu não tinha visto ainda e preciso ver de novo.
Para quem não viu, é imperdível.

sábado, 26 de novembro de 2016

Pulp Fiction




Filme muito cultuado dispensa comentário com resenha crítica. Terei mais facilidade em apontar aquilo que aprecio sem moderação na obra.
A trilha sonora é fantástica, do começo ao fim. As canções são escolhidas com muita felicidade para cada cena. Uma extraordinária decupagem ocorre quando "You'll be a woman soon" é colocada para tocar pela personagem Mia, servindo para conduzir sua empolgação e, ao mesmo tempo, para embalar a sequência de tensão sexual entre ela e Vincent. A canção funciona simultaneamente como source music e tema de fundo.
Gosto muito da cena do restaurante, cheia de estilo, de referências, de colorido. Enquanto os dois se provocam e se desafiam, muitas informações recheiam a tela e a imaginação. Simpatizo com a ideia de comer dentro de um carro de época, respirando a atmosfera de um tempo histórico empolgante no meu imaginário.
As cenas do trato entre Butch e Marsellus também mexem comigo. Tratando-se de um acordo para findar uma perseguição provavelmente letal, construído a partir da opção de Butch de interromper o estupro a que seu perseguidor estava sendo submetido, a sequência coloca, ironicamente, a honra como elemento central, num contexto marcado pela banalização da violência contra a vida.
O elenco é de primeira. John Travolta faz seu melhor trabalho no cinema, e acredito que Bruce Willis também.
Provocações, ironias e tiradas sucedem-se num ritmo de condução da trama raríssimo de se encontrar. É isso. Vale ver. Mesmo quem não gosta muito do estilo de Tarantino tem de admitir que ele faz cinema de primeira, muito bem feito, e sem concessões à previsibilidade e à pieguice. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Procurando Nemo




Peixes do mar ou de aquários ornamentais aparecem em nosso imaginário como seres frágeis e vulneráveis. Como sabemos da enorme diferença de tamanho e poderio entre predadores (baleias, tubarões, pelicanos) e presas (pequenos peixes), sentimos, ao assumirmos o lugar das segundas, a tensão de saber que podemos perder a vida a qualquer momento, e que estamos constantemente lutando contra adversidades e situações que nos colocam em risco.
A bela animação "Procurando Nemo" explora a narrativa da busca do pai pelo filho justamente nesse contexto. Os simpáticos peixinhos separados por rusgas emocionais e golpes de azar estão em constante disputa e negociação com seres altamente perigosos para suas integridades. Em sintonia com essa temática geral, a relação pai e filho caracteriza-se pela superproteção, uma vez que o pequeno Nemo possui uma barbatana defeituosa, e é poupado pelo pai de possíveis problemas em aventuras pelo mar. Nemo, desgostoso com esse comportamento, busca reconhecer e aplicar as suas próprias forças, superando as limitações impostas pelo defeito e pelo medo paterno. Embora quase angustiante em muitas sequências, por assumir o ponto de vista dos desprotegidos, o filme consegue desenvolver muito bem esse "nó familiar" dentro da narrativa, promovendo a reflexão sobre uma temática polêmica e mal discutida, que é a da inclusão, para um público-alvo infantil.
Note-se, também, que os seres humanos são vilões para os peixes, e as personagens-gentes aparecem de forma caricata em suas ações e hábitos cotidianos. Essa configuração flerta com a perspectiva de questionamento da relação entre o homem e o meio ambiente, igualmente importante de se desenvolver com as crianças, que ainda não naturalizaram determinadas brutalidades. 
Em "Madagascar", o leão Alex, para saciar sua fome sem atacar seus amigos, termina a história aprendendo a se alimentar de peixes. Na história, eles são os únicos animais não humanizados, sendo vistos de forma muito semelhante àquela pela qual os seres humanos os veem comumente. Em "Procurando Nemo", ao contrário disso, os peixes ganham estatuto de sujeitos de suas trajetórias por oceanos e aquários, e essa inusitada perspectiva carreia um discurso de solidariedade, respeito às limitações e confiança nas potencialidades alheias, excelentes maneiras de superar defeitos e vulnerabilidades individuais.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lanterna verde



2011 - DC Comics - Martin Campbell - com Ryan Reynolds e Blake Lively.

Um pouco difícil para mim comentar alguma coisa de um filme que, passado algum tempo de seu lançamento, já foi considerado pela crítica um fracasso. Fica parecendo que tento ou justificar essa condenação ou refutá-la. Mas a verdade é que não o vi nessa perspectiva.
Ainda assim, admito que ele não é tão empolgante quanto os outros filmes de super-heróis produzidos nos últimos anos. Considero a história e o fundamento do enredo fantásticos, mas o desenvolvimento do roteiro acabou guardando a ação para os trinta minutos finais, e ficou pouco. Antes disso, há muita dúvida no protagonista, muita incerteza em relação ao campo de ação do vilão, muito pouca ação efetiva e tensão entre os adversários. As coisas acontecem bem mais fora do planeta Terra que dentro, embora o foco da história continue no herói e em seus dilemas interiores. Se esses dilemas não são ligados diretamente a pontos intensos da trama ou a reviravoltas emocionais, poderíamos pensar em um filme que renderia um aprofundamento poético. Mas, com essas características, fica difícil realizar um filme de aventura e ação, em que as tensões devem, em tese, ser canalizadas para combates difíceis e desafios aos limites das personagens. O rompimento do casal central no início da trama, por exemplo, é dúbio, frágil, sem motivação convincente. O antagonismo de Hector Hammond também não é construído com base em nenhuma rusga ou questão vital, e mesmo a concorrência amorosa entre ele e Hal Jordan por Carol Ferris é mal explorada. Não dá para torcer pelo herói nem odiar o vilão até saber a que vieram, e isso ocorre muito tarde na trama.
Por outro lado, o filme é visualmente atraente. Diversas cenas são exuberantes, os atores protagonistas são muito bonitos, a direção de arte das cenas fora da Terra é bem bacana. O Lanterna Verde, enquanto personagem já mítico do universo dos quadrinhos, continua encantador, como tudo o que se refere a ele. É o que salva o filme e garante o prazer de sua fruição.