sábado, 19 de novembro de 2016

Procurando Nemo




Peixes do mar ou de aquários ornamentais aparecem em nosso imaginário como seres frágeis e vulneráveis. Como sabemos da enorme diferença de tamanho e poderio entre predadores (baleias, tubarões, pelicanos) e presas (pequenos peixes), sentimos, ao assumirmos o lugar das segundas, a tensão de saber que podemos perder a vida a qualquer momento, e que estamos constantemente lutando contra adversidades e situações que nos colocam em risco.
A bela animação "Procurando Nemo" explora a narrativa da busca do pai pelo filho justamente nesse contexto. Os simpáticos peixinhos separados por rusgas emocionais e golpes de azar estão em constante disputa e negociação com seres altamente perigosos para suas integridades. Em sintonia com essa temática geral, a relação pai e filho caracteriza-se pela superproteção, uma vez que o pequeno Nemo possui uma barbatana defeituosa, e é poupado pelo pai de possíveis problemas em aventuras pelo mar. Nemo, desgostoso com esse comportamento, busca reconhecer e aplicar as suas próprias forças, superando as limitações impostas pelo defeito e pelo medo paterno. Embora quase angustiante em muitas sequências, por assumir o ponto de vista dos desprotegidos, o filme consegue desenvolver muito bem esse "nó familiar" dentro da narrativa, promovendo a reflexão sobre uma temática polêmica e mal discutida, que é a da inclusão, para um público-alvo infantil.
Note-se, também, que os seres humanos são vilões para os peixes, e as personagens-gentes aparecem de forma caricata em suas ações e hábitos cotidianos. Essa configuração flerta com a perspectiva de questionamento da relação entre o homem e o meio ambiente, igualmente importante de se desenvolver com as crianças, que ainda não naturalizaram determinadas brutalidades. 
Em "Madagascar", o leão Alex, para saciar sua fome sem atacar seus amigos, termina a história aprendendo a se alimentar de peixes. Na história, eles são os únicos animais não humanizados, sendo vistos de forma muito semelhante àquela pela qual os seres humanos os veem comumente. Em "Procurando Nemo", ao contrário disso, os peixes ganham estatuto de sujeitos de suas trajetórias por oceanos e aquários, e essa inusitada perspectiva carreia um discurso de solidariedade, respeito às limitações e confiança nas potencialidades alheias, excelentes maneiras de superar defeitos e vulnerabilidades individuais.

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