Acabo de ver, pela NETFLIX, este documentário sensacional, produzido pela própria empresa. Sempre desperta curiosidade o fato de que empresas de entretenimento por vezes promovem discussões e ideias contrárias às daqueles grupos que as financiam, como no caso deste filme. Em foco, está Robert Reich, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, renomado economista liberal, muito distante de ser qualquer tipo de pensador à esquerda (é bom que se frise isso), que tem como tese central a de que as grandes corporações estão se utilizando do Estado, via influência política, para aumentarem a concentração de renda e poder em suas mãos. Talvez não seja o caso da NETFLIX em particular, mas essa discussão com certeza envolve questionamento de ações no mercado de mídia, como grandes fusões (vide Disney e Fox). Mesmo que eu não saiba bem o porquê, o importante é que a NETFLIX deu essa oportunidade para reflexão, e nós aproveitamos.
O documentário, que é narrado em ritmo gostoso, fluente e sem pedantismos, mostra o esforço de Reich em ouvir as pessoas e identificar pontos comuns de insatisfação dentro de espectros políticos considerados opostos, como os dos republicanos e dos democratas. Impressiona verificar que Reich sai bem-sucedido dessa aparentemente inconcebível empreitada, porque detecta a raiz da insatisfação popular nos Estados Unidos como uma percepção geral de empobrecimento da população e degradação das condições de vida.
Um dos momentos altos da película ocorre quando Reich, democrata histórico, conversa com um dos mais conservadores deputados do Congresso, e ambos se veem impelidos a combater o que chamam de capitalismo de compadres, insensível a questões éticas da representatividade política. Nos dois pólos da política americana, dois homens ideologicamente em conflito são capazes de entender com lucidez que a confiança da população nas instituições decai na medida mesma em que essas instituições se tornam ineficientes em seu papel democrático. O sistema deve funcionar para todos, e isso não está acontecendo: ambos têm essa clareza.
Outro momento brilhante do filme ocorre na análise de Reich sobre a insatisfação popular. O economista entende que a população se sente desamparada e insegura em relação ao sistema, e que, por isso, tende a procurar alternativas populistas, ou seja, aqueles que aparentemente reconectam os interesses populares com o Estado. Entretanto, segundo Reich, há uma grande tendência de que essa demanda recaia sobre o autoritarismo, com a ascensão ao poder de um líder aparentemente forte e capaz de resolver problemas. Mas esse perfil autoritário tenderia, na verdade, à manutenção do crescimento da desigualdade dentro do sistema e à culpabilização de bodes expiatórios, sem afetar as estruturas e legislações que precisariam ser revistas. Isso acontece em termos de cultura política, acrescento eu, lá e aqui também, no Brasil.
A lucidez de Robert Reich mostra que é preciso saber dialogar com quem estuda e se aprofunda, e saber ler nos extremismos os pedidos de diálogo e formação das pessoas que estão insatisfeitas, mas não conseguem identificar exatamente com o quê.
