segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Salvando o capitalismo




Acabo de ver, pela NETFLIX, este documentário sensacional, produzido pela própria empresa. Sempre desperta curiosidade o fato de que empresas de entretenimento por vezes promovem discussões e ideias contrárias às daqueles grupos que as financiam, como no caso deste filme. Em foco, está Robert Reich, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, renomado economista liberal, muito distante de ser qualquer tipo de pensador à esquerda (é bom que se frise isso), que tem como tese central a de que as grandes corporações estão se utilizando do Estado, via influência política, para aumentarem a concentração de renda e poder em suas mãos. Talvez não seja o caso da NETFLIX em particular, mas essa discussão com certeza envolve questionamento de ações no mercado de mídia, como grandes fusões (vide Disney e Fox). Mesmo que eu não saiba bem o porquê, o importante é que a NETFLIX deu essa oportunidade para reflexão, e nós aproveitamos.
O documentário, que é narrado em ritmo gostoso, fluente e sem pedantismos, mostra o esforço de Reich em ouvir as pessoas e identificar pontos comuns de insatisfação dentro de espectros políticos considerados opostos, como os dos republicanos e dos democratas. Impressiona verificar que Reich sai bem-sucedido dessa aparentemente inconcebível empreitada, porque detecta a raiz da insatisfação popular nos Estados Unidos como uma percepção geral de empobrecimento da população e degradação das condições de vida.
Um dos momentos altos da película ocorre quando Reich, democrata histórico, conversa com um dos mais conservadores deputados do Congresso, e ambos se veem impelidos a combater o que chamam de capitalismo de compadres, insensível a questões éticas da representatividade política. Nos dois pólos da política americana, dois homens ideologicamente em conflito são capazes de entender com lucidez que a confiança da população nas instituições decai na medida mesma em que essas instituições se tornam ineficientes em seu papel democrático. O sistema deve funcionar para todos, e isso não está acontecendo: ambos têm essa clareza.
Outro momento brilhante do filme ocorre na análise de Reich sobre a insatisfação popular. O economista entende que a população se sente desamparada e insegura em relação ao sistema, e que, por isso, tende a procurar alternativas populistas, ou seja, aqueles que aparentemente reconectam os interesses populares com o Estado. Entretanto, segundo Reich, há uma grande tendência de que essa demanda recaia sobre o autoritarismo, com a ascensão ao poder de um líder aparentemente forte e capaz de resolver problemas. Mas esse perfil autoritário tenderia, na verdade, à manutenção do crescimento da desigualdade dentro do sistema e à culpabilização de bodes expiatórios, sem afetar as estruturas e legislações que precisariam ser revistas. Isso acontece em termos de cultura política,  acrescento eu, lá e aqui também, no Brasil.
A lucidez de Robert Reich mostra que é preciso saber dialogar com quem estuda e se aprofunda, e saber ler nos extremismos os pedidos de diálogo e formação das pessoas que estão insatisfeitas, mas não conseguem identificar exatamente com o quê.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Rogue One




Rogue One fez bem seu papel de filme paralelo a uma sequência mitológica de uma das maiores franquias do cinema.
Primeiro, como produto acabado. Vi o filme em 3D. Seus recursos visuais são bastante apropriados para esse formato. Cenas intensas de guerra e destruição ficam mais vívidas.
Além disso, enquanto estrutura narrativa, o filme responde à altura o desafio de ser interessante e envolvente sem contar com as grandes estrelas da franquia (nem os atores, nem os personagens icônicos). A ausência de Luke, Leia, Solo, Chewbacca, e a participação apenas adjuvante de Vader, C3PO e R2D2 geram um vazio de expectativa, preenchido por uma trama bem concatenada, com novos personagens que, se não são icônicos, são eficientes para o objetivo cinematográfico desejado. Dois personagens, em particular, podem ser vistos como memoráveis: o robô K2SO, com seu humor peculiar, e Chirrut Imwe, o guardião cego que confia no poder da Força e atua como se pudesse ver. 
Pela primeira vez na saga, o centro da história não é duelo Sith x Jedi, nem conflitos interiores de Anakin/Vader, e sim uma disputa política de poder militar entre rebeldes e Império. Há remissão à Força e ao Lado Negro, mas essa tensão está longe de ser o núcleo do enredo. Os protagonistas não transcendem a trama: estão irremediavelmente atrelados a essa história específica e marginal, e é dentro dela que têm de se desenvolver. 
Na verdade, toda a ação dos rebeldes se dá em um contexto de derrota iminente e desesperança, rompidos por pequenos laivos de coragem e ousadia, que são o foco temático escolhido e a única coisa que pode mudar o desfecho evidente. Em consequência, cria-se um filme sombrio, mas com personagens mais humanos que os da saga, porque não possuem diferenciais mágicos, míticos ou inatos. A maior humanidade das personagens gera mais questionamentos, porque a divisão entre bem e mal, certo e errado, certeza e incerteza, fica menos marcada. Semioticamente falando, diria que os destinadores são menos fortes e implacáveis, e por isso heróis e vilões são mais frágeis e dúbios. 
Mas esse é o charme de Rogue One. E esse charme garante à produção sua relevância dentro da saga, da qual tornou-se representante legítimo, ainda que a seu modo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O invasor americano




Em sua mais recente produção, Michael Moore resolveu visitar países mundo afora para conhecer soluções implementadas em diversas áreas, como saúde, educação, justiça etc. Foram visitados Portugal, Itália, França, Tunísia, Alemanha, Suécia, Noruega, Finlândia, Eslovênia.
Muito bem humorado, mas também muito atento às questões que envolvem causas polêmicas e importantes para a vida dos cidadãos de vários países do mundo, o diretor conduz esse passeio fazendo comparações entre as soluções encontradas e aquelas que são aplicadas nos Estados Unidos. Seu compromisso é levar essas boas ideias para serem aplicadas em seu país.
Alguns depoimentos são muito chocantes e agressivos, mostrando como indivíduos em todo mundo questionam e rechaçam o American Way of Life. Particularmente interessantes são as soluções escolares na França, onde as crianças fazem suas refeições monitoradas por nutricionistas e sendo educadas para uma dieta saudável, e na Finlândia, onde os estudantes ficam tempo menor em sala de aula e não levam atividades para casa.
O conceito do filme de Moore, se retomado por interessados brasileiros, em nosso contexto, serviria para trazer importantes tópicos de discussão para nosso país. Seria muito bem-vinda a informação sobre soluções adotadas em outros países para evasão escolar, desemprego, combate ao tráfico. Via de regra, só recebemos soluções já prontas, pré-aprovadas, nas quais o diagnóstico e o remédio são apresentados como indiscutíveis e inquestionáveis. Precisamos ser menos submissos às ideologias e modinhas que os americanos vendem por aqui (nada contra nem a favor, apenas constatando que assimilamos coisas demais de um país só), e pensar mais em nossos vizinhos de fronteira e em outros países que encontraram formas de equilibrar suas demandas com seus próprios recursos de inteligência.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Requiem for the American Dream




Tenho enorme admiração e simpatia pelas ideias de Noam Chomsky, desde meus tempos de estudante universitário. Considero-o intelectual de lucidez extraordinária, com coragem para analisar e expor problemas da sociedade americana e do capitalismo global. Não sei se é o maior intelectual vivo, como se costuma dizer, mas é um dos intelectuais com pensamento mais consistente dentre aqueles que se tornaram figuras públicas de destaque.
O filme é um tributo ao trabalho desse grande pensador, e é montado para mostrar a essência de suas contribuições em relação a questões políticas e de economia. Sem pirotecnias, apenas com imagens que funcionam quase como lâminas decorativas e ilustrativas, este documentário vale a pena justamente porque deixa o raciocínio de Chomsky fluir e penetrar como um estimulante em nossas convicções democráticas mais profundas. Optou-se pelo mínimo de direcionamento de sua fala (evidentemente, as escolhas das sequências e cenas e as edições já são direcionamentos), o que se pode perceber pela ausência de uma locução narrativa paralela, o que parece ter minimizado a intervenção explícita do narrador, que se dá exclusivamente por meio de legendas e escolhas de imagens.  Há, funcionando como marca enunciativa, uma esquematização didática da exposição, o que, obviamente, corta alguns raciocínios que gostaríamos de ver um pouco mais desenvolvidos, mas ao mesmo tempo permite uma maior concentração de posições polêmicas no mesmo espaço de tempo cinematográfico.
O diretor soube deixar o mérito maior para Chomsky, e essa é a grande virtude de seu trabalho.