sábado, 14 de janeiro de 2017

Rogue One




Rogue One fez bem seu papel de filme paralelo a uma sequência mitológica de uma das maiores franquias do cinema.
Primeiro, como produto acabado. Vi o filme em 3D. Seus recursos visuais são bastante apropriados para esse formato. Cenas intensas de guerra e destruição ficam mais vívidas.
Além disso, enquanto estrutura narrativa, o filme responde à altura o desafio de ser interessante e envolvente sem contar com as grandes estrelas da franquia (nem os atores, nem os personagens icônicos). A ausência de Luke, Leia, Solo, Chewbacca, e a participação apenas adjuvante de Vader, C3PO e R2D2 geram um vazio de expectativa, preenchido por uma trama bem concatenada, com novos personagens que, se não são icônicos, são eficientes para o objetivo cinematográfico desejado. Dois personagens, em particular, podem ser vistos como memoráveis: o robô K2SO, com seu humor peculiar, e Chirrut Imwe, o guardião cego que confia no poder da Força e atua como se pudesse ver. 
Pela primeira vez na saga, o centro da história não é duelo Sith x Jedi, nem conflitos interiores de Anakin/Vader, e sim uma disputa política de poder militar entre rebeldes e Império. Há remissão à Força e ao Lado Negro, mas essa tensão está longe de ser o núcleo do enredo. Os protagonistas não transcendem a trama: estão irremediavelmente atrelados a essa história específica e marginal, e é dentro dela que têm de se desenvolver. 
Na verdade, toda a ação dos rebeldes se dá em um contexto de derrota iminente e desesperança, rompidos por pequenos laivos de coragem e ousadia, que são o foco temático escolhido e a única coisa que pode mudar o desfecho evidente. Em consequência, cria-se um filme sombrio, mas com personagens mais humanos que os da saga, porque não possuem diferenciais mágicos, míticos ou inatos. A maior humanidade das personagens gera mais questionamentos, porque a divisão entre bem e mal, certo e errado, certeza e incerteza, fica menos marcada. Semioticamente falando, diria que os destinadores são menos fortes e implacáveis, e por isso heróis e vilões são mais frágeis e dúbios. 
Mas esse é o charme de Rogue One. E esse charme garante à produção sua relevância dentro da saga, da qual tornou-se representante legítimo, ainda que a seu modo.

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