Concebo duas subcategorias de filmes, organizadas pelos seus núcleos temáticos, que aprecio a despeito de reconhecer a mediocridade de boa parte de seus exemplos. São os filmes de dinossauros e os filmes sobre boxe.
Quanto aos primeiros, não lembro de ter sido produzida nenhuma obra-prima com esse tema, embora o primeiro King Kong deva ser reconhecido como clássico, por justiça.
Quanto aos segundos, há filmes muito bons entre outros não tão bons: Rocky, O Touro indomável, Menina de Ouro. Os protagonistas desses filmes lutam por várias motivações e contra vários problemas particulares, e a condição de boxeador dialoga com outros fatores importantes para o enredo, como a marginalidade, a pobreza, a violência, o descontrole, o ímpeto, e a confiança.
Reconheço que esses três filmes citados, por diversas razões, são esteticamente mais bem acabados, e creio que possam ser considerados clássicos do cinema. Mas nenhum dos filmes sobre boxe é tão tocante quanto O campeão, que vi na versão de 1979: no que tange ao espírito da "nobre arte", talvez não haja uma percepção tão justa de sua dimensão emocional e existencial.
O boxe é uma luta, um jogo, uma dança, e, principalmente, uma forma de direcionar energias do corpo e da mente para dizer algo sobre si e sobre o mundo. Não é à toa que boa parte dos boxeadores tem dificuldade de parar, mesmo quando seus corpos já não respondem às ordens do cérebro com a agilidade necessária. O espírito do boxeador é tentar saber se poderia ficar em pé um pouco mais, fazer um outro round, fazer uma próxima luta. O boxeador empenha seus limites físicos para entender seus limites existenciais. Mas do que vencer ou perder, essa busca metaforiza o enfrentamento da vida sem recuo, sem autopiedade e sem medo do que possa acontecer depois.
O campeão é um filme de amor, principalmente; mais do que o amor paterno, o amor pela vida e pela possibilidade de dar o seu melhor, sempre. Assim eu o senti em minhas lágrimas.

