Versarei aqui sobre a produção clássica de Steven Spielberg da década de 1970. É um dos melhores usos de câmera que conheço. Desde a primeira cena, os ataques são construídos por alternâncias entre o ponto de vista da pessoa atacada ou seu acompanhante - incapaz de perceber, no mar, o avanço do predador - e o ponto de vista do animal, ou o movimento que poderia representar seu ponto de vista. Quando a câmera se desloca debaixo da água em direção ao corpo dos banhistas, há sempre uma sensação de iminência de violência, mesmo quando se está diante de um alarme falso. Justamente por não poder distinguir o ataque real do alarme falso, o espectador fica em estado de constante tensão, pressionado pelos elementos de narrativa que o diretor-enunciador-informante fornece. Contribui para esse estado de tensão a vulnerabilidade física de alguns atacados, como crianças e idosos.
Os três protagonistas que se propõem a enfrentar de dentro do barco a fera dos mares são personalidades complexas, dúbias e imperfeitas, que se atritam em sua teimosia e em suas divergências. Com isso, a narrativa ganha uma tensão adicional, em que o sucesso da empreitada depende, também, do improvável entendimento dos participantes. Além desses aspectos, há uma crítica à crueldade da administração pública quando minimiza situações de grave perigo em função dos lucros possibilitados pelo turismo.
Ainda que não conte com recursos de efeitos visuais de primeira, como mais tarde conseguiria, Spielberg conduz a narrativa de forma a tornar a aparição do tubarão, no enfrentamento aberto final, como ponto máximo da percepção de periculosidade. Antes de vê-lo em ação, o espectador já sabe de tudo o que ele pode fazer, e efetivamente já fez. Ainda que tivéssemos uma construção computadorizada altamente fiel do tubarão nos dias de hoje, isso provavelmente não mudaria a sensação de realidade transmitida pelo filme, que é baseada num contrato ficcional competente, cujo desenvolvimento atua como fator desestabilizador do sentimento humano inato de autopreservação.

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