É muito bacana quando um filme consegue surpreender positivamente, trazendo mais do que a gente esperava numa primeira aproximação. "Sangue negro" proporcionou essa sensação, e seu mérito de fazê-lo é grande, pois impressionou mesmo a um espectador que já tinha sido informado sobre as razões de sua aclamação crítica. Com efeito, antes de vê-lo, já tinha lido sobre sua excelência, mas essa obra é daquelas que não adianta tentar descrever: é preciso aceitar e fruir suas provocações.
Num primeiro momento, não gostei da tradução do título, que me pareceu estranha. "There will be blood" não remetia, na minha cabeça, à palavra "negro", mas percebi que a sacada da expressão em português é unir sangue e petróleo no mesmo conceito, e ainda fazer referência a uma das problemáticas do filme, que é a da herança genética.
Daniel Day-Lewis ganha a gente de cara. Um dos maiores atores de todos os tempos, esse cara consegue fazer o espectador esquecer completamente de como atuava nos outros trabalhos que fez. Quem acompanha o desenvolvimento da interpretação ao longo do filme "entra" no caráter da personagem e assimila sua profundidade. É incrível, mas parecem ser atores diferentes os que protagonizam "Lincoln" e "Meu pé esquerdo" ( e não são!). Quem viu os três filmes teria enorme dificuldade de descrever as características do estilo do próprio ator incorporadas às atuações. Muito bom e muito raro.
No decorrer da narrativa, percebe-se que "Sangue negro" constrói uma crítica ácida e cruel ao tão propalado e estimulado espírito empreendedor capitalista, que aparece em duas facetas: a do pastor e a do explorador. Embora o religioso Eli Sunday apareça menos e não seja caracterizado exatamente como um homem de empreendimentos técnicos, ele possui o talento de alcançar o que financeiramente lhe convém pelo discurso e pelo gerenciamento de sua relação com os promotores das transformações financiadas pelo capital.
A crueldade dessa temática pode ser associada ao padrão cenográfico, com cenas longas e escassos diálogos, que torna o filme seco e duro, tal como o trabalho de escavação e as condições de vida da população do campo. Há muito sofrimento físico, calor, sangue. Há sequelas terríveis para os trabalhadores e os financiadores, no corpo e no espírito.
Toda essa dor contribui para o questionamento dos aspectos desumanizadores da busca desenfreada pela riqueza no interior da terra árida. E isso é muito bacana: o filme não edulcora o espírito empreendedor e a ambição, hoje tão valorizadas como "motores do sucesso" e apresentadas pelos veículos de massa como méritos inquestionáveis de uma casta de escolhidos e diferenciados. Ao mesmo tempo, não nega que essas disposições de espírito movem o progresso, mas ressalta que esse progresso é permeado de barbárie e violência, e que não se mostra suficiente ou compensador nem mesmo para quem o alcança a duras penas.
Outro ponto muito positivo do filme é tocar na questão da integração social do deficiente auditivo. A relação do protagonista com o filho é complicadíssima, e passa pela incompreensão da sociedade em relação ao surdo e suas necessidades. Entre as questões mais pungentes trazidas pelo roteiro está a da incapacidade de conciliar o zelo pelos entes queridos e a necessidade de avançar os negócios: é mais fácil e "seguro" se livrar deles do que incorporá-los. No enredo bem concatenado, o abandono de H. W. e a relação com Henry atestam a solidão moral e psicológica do protagonista, grande ponto fraco de sua personalidade, com a qual é incapaz de lidar.
Além de todos esses primores, a trilha sonora de Jonny Greenwood, do Radiohead, é um show à parte, respondendo com muita precisão aos chamados brutais da imagem em movimento.
Eu não tinha visto ainda e preciso ver de novo.
Para quem não viu, é imperdível.
