domingo, 26 de julho de 2020

Parasita, de Bong Joon Ho



Que eu saiba, só um filme, Marty, com Ernest Borgnine, tinha vencido o Oscar de Melhor Filme e a Palma de Ouro em Cannes. Nenhum até então tinha vencido o Oscar de Melhor Filme e o de Melhor Filme Estrangeiro (que mudou para outro nome, esqueci qual). Nenhum tinha ganhado as três coisas. 
Ver Parasita depois dessa celebração toda da qualidade do filme poderia ter sido uma experiência frustrante. Eu esperava, por essas conquistas únicas, encontrar uma obra-prima. Ainda mais porque os filmes do Oscar deste ano eram muito bons, todos eles.
Vi numa longa madrugada. Parei várias vezes (coisa que não poderia fazer no cinema). Refleti, senti a força do que vinha tela, rodei de novo, parei de novo. Levei mais de três horas para ver. Realmente, é uma obra-prima impactante. Há elementos de suspense suficientes para carregar a trama, mas o aspecto da representatividade social dos tipos humanos tem potencial desestruturador para quem acompanha absorto. As feridas abertas das divisões de classe e da invisibilidade da pobreza são recuperadas de modo poético e instigante. A miséria sempre prestes a explodir não explode (como ressalta um dos diálogos mais tensos do filme), ela se infiltra e se beneficia da astúcia que a necessidade construiu, dissolvendo contratos morais e buscando aquilo que se constrói a partir de sua exploração, sem jamais se sentir devidamente pertencente ao mundo que almeja.
Este filme coreano causou em mim impacto semelhante a Beleza Americana. Ambas as narrativas conseguem coligir elementos relevantes para a compreensão de que os valores e padrões almejados pela sociedade de consumo são erigidos na vacuidade e futilidade de um modo de vida inseguro e insatisfatório, pautado em sinais de poder muito caros e muito sem sentido. Em Beleza Americana, a questão é como romper com esse modo de vida. Em Parasita, seria como viver à margem, mas perto e até dentro dele, desejando-o sem jamais alcançar.